domingo, 15 de junho de 2014

Mãe Só no Papel - Mentiras Para Proteger ou Manter o Status Quo?



Decisão judicial permite nome fictício de mãe em registro de criança adotada só por homem. ” – Essa foi a nota que me deparei logo cedo ao ler minhas notícias diárias. O texto publicado pelo Diário de Pernambuco relata a decisão tomada pela juíza Paula Maria Malta Teixeira do Rêgo, da 11ª Vara de Família e Registro Civil da Capital. Decisão está, que tem aparato legal, foi impetrada pelo pai adotivo, pois a falta de do nome no registro estava causando transtornos na criança e na família.

O ECA (Estatuto da Criança e Adolescente), tratando-se de adoção tem como um dos seus pilares o Princípio do Melhor Interesse, isto é, o bem estar da criança deve ser adotado em sua plenitude, ou seja, o Estado deve de todas as formas garantir que se resguarde todos os direitos econômicos, sociais e emocionais da criança na nova família sempre respeitando a vontade do menor. Esse foi um dos argumentos utilizados para justificar a decisão, com o intuito de proteger o estado psicológico da criança até mesmo de futuro bullying. Então, foi permitido a criação de uma mãe fictícia para a menor. Entretanto, desde que que li o titulo me perguntei se isso seria realmente uma solução para melhor garantir o interesse da criança ou apenas uma forma de maquiar nossos próprios preconceitos perante o instituto familiar.

A família é o primeiro contato de inteiração da criança com o mundo exterior, é base para que se desenvolva nos seus primeiros anos de vida, porém, socialmente a família não é vista simplesmente como um seio, no qual, as primeiras formas de interação serão formadas ajudando no processo de maturação infantil, mas sim, ela está preenchida de estigmas que poderá até prejudicar esse desenvolvimento. Um dos exemplos mais claros desse estigma é ver a família nuclear na forma de trindade, ou seja, pai e mãe heterossexuais e seus filhos. Acabando, assim, por eliminar todas as outras formas de constituição familiar, como por casais homossexuais, famílias formadas por diversas etnias e, como no caso da matéria mencionada, apenas por um dos responsáveis.  

Essa figura parental formulada historicamente, no qual, é necessária conjuntamente a presença feminina e masculina para que se tenha uma família acaba por obstruir todas as outras formas de famílias que existem e que são mais condizentes com a realidade do que aquela a imposta socialmente. E essa imposição de uma família padrão acaba por gerar preconceitos que incidirá principalmente na criança e adolescente podendo até causar damos psicológicos.

Foi na intenção de proteger essa criança que o pai compareceu perante juízo pedindo a inserção de um nome materno fictício na Certidão de Nascimento de seu filho e que tal pedido foi amparado judicialmente.  Porém, volto a pergunta anterior, será que uma mentira é a melhor forma de proteger psicologicamente uma criança ou estamos protegendo nossa própria psique que está fundamentada numa certa estrutura social regida por uma classe dominante.

Temos a mania de tratar crianças como seres extremamente incapazes e que precisamos a todo custo protegê-los das mazelas sociais. Temos, então, o péssimo hábito de esconde-los numa redoma de vidro do resto do mundo. E essa inserção de um nome materno fictício não serviu apenas para proteger o menor, mas antes de tudo, proteger nossa própria incapacidade de conceber o diferente. Quais seriam os efeitos futuros que isso poderia acarretar, talvez não seriam mais graves? E se essa criança quiser descobrir quem é aquela pessoa em seu registro de nascimento? Quais estórias ela própria não idealizariam sobre aquele nome e depois descobrir que tudo era fictício? Crianças não são seres incapazes assim como os adultos estão em processo de desenvolvimento e precisam do contato com o externo, ou seja, com a realidade para que isso ocorra. Enquanto pensarmos que proteger é maquiar estaremos criando adultos que não conseguem lidar com a realidade.

A própria constituição em seu artigo Art. 226, § 4º, que trata da família diz: Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes. E um dos princípios que rege a instituição família é o da afetividade, então, uma família que principalmente tenha a em seu seio a característica de respeito, carinho e amor entre si, não importa como seja constituída ela será sim uma família. Portanto, o fato da criança está sofrendo represália por não ter a figura da mãe é reflexo de uma sociedade que não está prepara para uma visão mais intimista do outro, uma visão da realidade, é reflexo de uma sociedade que só reproduz e não pensa.

Ressalto ainda, essa visão que as pessoas ainda mantem sobre o âmbito jurídico, no qual, ele serve para educar e moldar a sociedade, uma lei ou decisão infelizmente não fará com que nos guiemos para uma sociedade mais justa como gostaríamos que fosse, afinal, leis são criadas a partir da própria consciência coletiva e não o contrário, Então, se quisermos proteger nossas crianças devemos não criar histórias fictícias sobre o mundo, mas, primeiramente, mudar nosso próprio julgamento sobre o outro.



domingo, 25 de maio de 2014

Tinder - As ferramentas que nos separam na sociedade moderna



         Após assistir ao filme Her reapareceu a vontade de escrever sobre um tema que há muito queria, mas acabei por deixar de lado. A história é sobre Theodore, um homem emotivo que com o fim de seu casamento se apaixona por Samantha um Sistema Operacional. Essa descrição é reduzir demais o filme, mas não é minha intenção aqui fazer uma crítica cinematográfica. Esse texto não é sobre ele, mas sim, sobre o que o filme quer mostrar, é sobre solidão, é sobre mim. 

      Modernidade, tecnologia, solidão, não quero parecer pessimista, mas sempre penso que esses temas estão relacionados. Toda vez, que uma nova rede social surge vejo com ela a propaganda de uma forma mais prática de interação entre pessoas, fazendo novos amigos ou mantendo velhas amizades. Uma meio de estar sempre próximo ao outro, mas o que vejo na realidade é cada um conectado em sua própria solidão. O filme mostra isso de uma forma bastante clara com a chegada do OS1 uma nova tecnologia que não é apenas um Sistema Operacional que irá facilitar sua vida, mas como dito no filme, é sua consciência. Theodore enquanto fica cada vez mais próximo de seu OS1 parece esquecer o mundo, apesar de ser apresentado diferente, afinal, quando começou a namorar Samantha ele voltou a aparentar felicidade, saia com amigos e etc. Porém, todo o tempo não conseguia vê-lo senão como alguém solitário, pois o que ele se agarrava não era real. Impossível não fazer uma analogia desse filme e as ferramentas que proporcionam essas novas formas de contato entre pessoas. E também, impossível não fazer uma reflexão sobre como estão se dando essas relações.



      Meu interesse nesse tema começou quando ouvir falar demais sobre uma nova rede social  um tal de "Tinder" que várias pessoas em meu ciclo social estavam começando a usar. Para quem não conhece é um aplicativo que conectado ao facebook e GPS ajuda pessoas que estão geograficamente próximas (ex: uma cidade), e que compartilham gostos em comum a se encontrarem. Se você gostar de uma pessoa você dá uma curtida e se essa mesma pessoa também curtir você está aberto o campo para a socialização. É uma ótima ideia, eu admito. Então, qual o problema? Não me entendam mal, tenho vários amigos virtuais formados nesses anos de web, conheço e sou amiga de casais que se conheceram via internet. Não digo que tais relacionamentos começados de forma virtual não se concretizam, pois temos vários exemplos que eles dão certo. A minha dificuldade e por perceber a fragilidade que essas novas formas de interação estão envolvendo as relações interpessoais. O conhecer o outro, no Tinder, está no simples curti ou não. Então, o individuo está restrito ao que ele curte no facebook, se você não tem o mesmo gosto musical, por livros ou prefere esportes a cinema, acabam-se as chances de conhecer a outra face daquela pessoa, ou seja, elimina-se as chances de potencialização/criação com aquela ser. Pois, o que é válido nesse aplicativo é a primeira  impressão e não o que se poderia construir numa relação dialética. É o mais puro reflexo da nossa sociedade moderna.

 
Talvez vocês pensem que estou exagerando, bom, talvez eu esteja. Numa discussão com uma amiga que me apresentou o Tinder em defesa ao aplicativo ela dizia que ele não mudaria a forma que as pessoas se relacionariam, pois ele serviria como um primeiro passo para uma inteiração verdadeira, ajudaria pessoas mais tímidas e etc. Não discordo, porém acredito que esse primeiro passo seja falho pelos motivos já expressos no paragrafo anterior. Portanto, é justamente essa seleção que me incomoda, e mais uma vez, em defesa ela dizia que fazemos seleção de pessoas naturalmente, opinião que compartilho. MAS, nossa seleção natural não acaba por eliminar de vez o indivíduo do nosso "sistema  operacional", afinal, nossas relações sociais não são formadas por uma plataforma virtual. E como essas relações estão cada vez mais comuns feitas a partir de uma tela de computador ou via celular é normal e natural que percamos com o tempo a capacidade de uma inteiração frente a frente, que fiquemos mais nervosos com o outro nos encarando. Admitam, ninguém gosta daquele incomodo de quando o assunto acaba, daquele primeiro momento de não saber o que dizer.  Relacionar-se pessoalmente gera ansiedade fazendo com que cada vez mais busquemos conversas por meio de uma tela. Afinal, o outro não irá ver quando você ficar corada, não correrá o risco de gaguejar. Chegará o tempo que estaremos totalmente presos na nossa zona de conforto. E se não tiver wi-fi? As pessoas irão conversar ou pegarão seus fones de ouvido?



 Vocês podem continuar achando que estou exagerando, mas não é minha culpa se o cotidiano me mostra o contrario. Certo dia perguntei a uma amiga se poderia fornecer o número de seu Whatsapp para um amigo que teria se interessado por ela, disse então, que estava pedindo permissão pelo caso dela não gostar de meu colega e ficar com raiva por eu ter fornecido. No que ela me respondeu: Por que ficaria com raiva, se eu não gostar é só deletar. Pode ser uma opinião precipitada, mas a cada dia, nossas relações estão se reduzindo a curti e deletar. Ao ver o outro por uma tela, no qual, só se mostra o que se quer. Chegará a época que o "eu-verdadeiro" terá receio de se mostrar por medo de não atingir as expectativas criadas por ele mesmo.    
  
    Como eu disse no começo esse é um texto sobre mim, então, talvez seja essa minha necessidade de um contato físico ou por ter de alguma forma me identificado com Theodore e seus problemas com relacionamentos reais, que me faça ver essas relações virtuais de uma forma tão crua e até pessimista. Não que eu seja uma oradora nata ou a pessoa mais sociável do mundo. Mas eu sinto que estamos perdendo o jeito de está cara a cara tentando tão desesperadamente encontrar alguém parecido conosco que esquecemos que há possibilidades. Além dessa mania de achar que só o que está a km de distância é bom o suficiente, esquecemos que há pessoas ao nosso lado.


     Não é minha intenção jugar quem utiliza Tinder ou outra rede social, prezo por quem usa esses meios da forma produtiva. Ainda porque, vivemos no tempo em que tudo muda a todo o instante, se estamos seguindo para que as relações se deem cada vez mais por essas vias, não vejo como correr contra a maré, já que a modernidade sempre rumou sozinha, além da mania controladora da humanidade. Nisso, não é valido ter uma visão maniqueísta das coisas, algo que estamos sempre propensos a fazer.  Não cabe aqui pré-julgar se essas mudanças serão boas ou desastrosas. Não vamos cair no perigo de ver a modernidade como salvadora ou de forma niilista. Cabe a nós, perceber tais mudanças e com elas captar a potencialidade de cada uma delas.




Sobre o filme, talvez eu esteja errada, talvez o que Theodore viveu tenha sido real, para ele foi. Minha visão de mundo não pode obscurecer as demais. Seria, simplificar as formas de amar, reduzir nossos sentimentos em teorias cientificas. Porém, ainda preso pelo contato físico. No entanto, não pretendo por enquanto mudar de opinião. Portanto não peça meu Whatsapp. Olhe-me nos olhos. Chame-me para tomar um café.













ps: A trilha sonora do filme é linda:

"Off You" The Breeders
"When You Know You're Gonna Die" Arcade Fire
"Cleopatra in New York (Zim Zam Mix)" Nickodemus
"Alien Child" Will Collins
"Super Symmetry" Arcade Fire
"Magnesium" N.A.S.A.
"I'm So Glad" Entrance
"The Moon Song" Scarlett Johansson and Joaquin Phoenix
"Racing Turtles" Barrie Gledden, Tim Reilly and Jason Pedder
"8 Bit Disco No. 3" Philip Guyler
"Need Your Love So Bad" Little Willie John
"Sure of Love" The Chantels
"Dimensions" Arcade Fire
"The Moon Song" Karen O.



sábado, 12 de abril de 2014

O Sentir-se Sozinho Na Rede ou O Não Existir Em Nosso Século

Sempre ao ler os livros de História que tratavam de algum momento crucial que acarretariam numa mudança nos perfis sociais. Sempre acabava pensando nas pessoas daquela época, aquelas que os livros de história não mencionam, aquelas que até parecem que não existiram, pois o decorrer do tempo naqueles livros didáticos parecem ser apenas o acumulado de datas especificas e alguns nomes famosos. Me perguntava se esses indivíduos sentiam o impacto que a revolução industrial ou a prensa de Gutenberg estava trazendo para os seus pacatos dias.

Pensava neles talvez gostar de história, ou por acreditar que os grandes acontecimentos surgiam das pequenas relações, dos atravessamentos diários (nem precisei ler Foucault para tal), ou talvez por sempre pensar no que não é realmente interessante para a maioria.

Hoje, as exatamente 20:53 mim, penso por sentir quase como uma força invisível a mudança dos dias nesse mundo de rede, no qual, tudo e todos estão conectados e se você não estiver. Você não existe.

Numa sociedade em que os olhares não mais se cruzam, e que pessoas só se conhecem por meio de uma tela, onde só é permitido falar a verdade quando não estiver cara a cara. Perdemos alguns prazeres da sociabilidade. Perdemos a capacidade de sermos verdadeiros frente a frente, pois estamos protegidos da fragilidade das relações, por um simples click ou delete.

Na realidade em que se tem mais redes sociais que amigos é preciso, a todo instante, mostrar o quão triste ou feliz você está, pois numa enxurrada de atualizações é preciso que você mostre que ainda está ali, que ainda sofre que ainda se alegra. Pois, então, existir hoje é sinônimo de aparecer, está a vista. Logo, no século de bilhões de notícias por segundo é preciso – desesperadamente— existir.

Se aparentemente existir é sinônimo de aparecer, me veio a curiosidade do verdadeiro significado desse verbete. De acordo com o dicionário Aurélio: Existir; 1. Ter existência real, ser haver; 2. Viver, estar; 3. Subsistir, durar.  

O que seria ter existência real nos dias de hoje? O que é realmente real, quem é a pessoa que converso todos os dias pelo computador? A foto que foi postada não coincide realmente com o momento que foi tirada. Como me mostro pode não condizer com a realidade. Se a vida, seus feitos, não são compartilhados nas redes sociais você não está lá. E também, ninguém mais com tantas informações consegue tempo para lembrar de alguém. Além de que, estamos cada vez mais vivenciado o efêmero. Nada dura tempo o bastante para se tornar importante, para ser lembrado. Tudo é desejado, nada é absorvido.  

Portanto, meus caros de acordo com Aurélio nós não existimos.

E nesses últimos meses vivenciei o fato de não existir. Há algum tempo exclui a rede social mais famosa da contemporaneidade (não desativei, exclui), e também deixei de lado tantas outras. Isso coincidiu com um período prolongado de férias, portanto, nada de compartilhamentos, nada de curtidas, nada de 140 caracteres, nada de mim no mundo. E depois de três meses o que mais ouvia era: onde você estava? O que aconteceu? Você sumiu! – Bom, não, não sumi. Estou no mesmo lugar, mesmo endereço, mesmo número de telefone.

Esse acontecido que acabou desencadeando alguns desentendimentos (Eu sei, foi mal, já pedi desculpas não faço mais, (não)prometo), me fez não apenas escrever esse texto, mas refletir sobre nós no mundo, não apenas nós, mas nossa forma de nos relacionarmos. Como firmar vínculos quando tudo está sempre em processo de transformação.

 Diversas são as causas de tudo está como está, mas este não é um artigo cientifico, é tão somente mais um de meus devaneios, então não cabe aqui enumera-las e discorre cientificamente sobre elas, mas vamos a alguns: Mercados globais, liberalismo político/econômico, tecnologia que se apresenta como o anjo e demônio de nosso século. Tudo nos guia cada vez mais ao individualismo. Aprendemos a ter pressa, gostamos de estar sempre atrasados, pois isso significa que somos produtivos. Em meio a períodos que não temos tempo para nos divertir é preciso mostrar que estamos felizes.


Fugi um pouco desse mundo. Fiz bem, fiz mal? Talvez eu tenha que esperar os livros de história que irão tratar desses dias, da modernidade liquida como diria Bauman, ou seja lá como irão chamar daqui para lá.  Enquanto isso, eu experimento o não existir, é calmo. 

PS: Comecei esse texto quando percebi que não tinha onde compartilhar uma matéria que achei de extrema importância para o mundo. Quem irá ler agora, já que não tenho onde compartilha-la? Mas, quem iria ler antes? 



sexta-feira, 14 de março de 2014

I FEEL SO GOOD

Uma coisa que aprendi recentemente com meus erros: Tente, mesmo que pereça impossível.

Eu não quero que isso pareça um texto de autoajuda, na verdade odeio autoajuda, odeio esses livros que dão uma receita de como ser feliz e de como você deve vive sua vida. Esses livros não te ajudam, na verdade te deixam dependentes e você não consegue seguir sem eles. Bom, eu estava com saudades de escrever, tanta coisa aconteceu depois do meu último post, tanta coisa já havia acontecido, mas que eu não escrevera nada, por preguiça, descuido, estresse...

Muita coisa aconteceu ano passado, na verdade, em seis meses parecia que havia ocorrido mais que em minha vida toda. Nunca acreditei muito nessa estória de: New Year, New Life!, mas foi justamente o que me ocorreu. Certo dia, almoçando com alguns amigos e ainda no estado de melancolia, que sabia esconder muito bem, um simples comentário de umas das pessoas da mesa atravessou minha mente quase como um Insight e me fez refletir: Puta merda, porque é que eu ainda estou mal por isso mesmo? Tantos meses de drama se desfez por conta de um comentário (Por sinal, ela não sabe que inconscientemente acabou me ajudando com isso. Preciso lembrar de agradece-la). A parti de então, comecei a tomar decisões e não só isso, comecei a pô-las em prática, algo inédito para quem normalmente ficava apenas na fase preparatória. Comecei por coisas simples; uma mudança de pensamento, parei de reclamar da vida e aprendi a fazer o meu melhor com as coisas que ela me proporciona. Espernear e dizer que não gosta de algo não fará aquilo ir embora, aprender a lidar e dar um significado para ele sim (outro amigo me fez percebi isso, obrigada também).

“A Males que vem para o bem”

Eu sei, eu sei…é frase de livro de autoajuda, mas depois que eu realmente percebi o significado dela foi o estopim da minha mudança. Sim, eu mudei. Consigo perceber isso, sentir. Algumas pessoas já comentaram, outras fizeram piadas, umas não disseram nada, mas eu percebo que notaram e percebo também que me veem com diferença. Tentando entender. Mas eu, eu me sinto bem, de uma forma que não me sentia a alguns meses. E tudo isso não apenas por algumas mudanças de habito, mas por mudar minha forma de agir no mundo. Eu nunca fui muito fã de mudança, nossa espécie não está prepara biologicamente e emocionalmente para isso, mudanças trazem incertezas. Mas biologicamente estamos sempre em mutação, não somos os mesmos de quando éramos crianças, muitas de nossas células já morreram e outras nesse exato momento (olhe para seu braço), está em constante ritmo de multiplicação. Somos mutantes.  

Todos nós em algum momento da vida já formos escravos da identidade. Tentar se classificar em algo, em algum grupo, algum estilo estético ou artístico por conta de sua representação simbólica ou social.  É preciso pertencer a algo, é preciso se comportar de certa maneira, passamos a vida ouvindo isso. E se por acaso você decide mudar o mundo aponta o dedo para você com frases: Você não era assim! Você não parece a mesma pessoa de antes! Você até parece que perdeu sua essência!

Um aviso para os desavisados: Essa coisa de essência NÃO EXISTE.

Olhe ao seu redor, procure um mapa mundo, leia um pouco os livros de geografia. Há milhares de grupos étnicos e culturais provavelmente até algumas que o homem ocidental não catalogou com sua mania e classificar tudo para poder controlar. E cada um deles age de maneira diferente de acordo com sua cultura. Da mesma forma que você sente e passa por determinadas coisas de acordo com sua historicidade, meio e traços biológicos.

“Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo”
Durante sua vida você irá passar por coisas que não imagina e que provavelmente não irá gostar; mudará de opinião muitas vezes, mais do que você imagina; se arrependerá de muita coisa que fez, sim, nunca acreditei e espero que você também não caia naquela frase manjada de: Só me arrependo do que não fiz. Bem, você fará muita coisa errada, mesmo com todos os conselhos e se não se arrepender delas... Eu sinto muito meu caro, mas você continuará o mesmo estagnado de sempre.

Bom, não me compreenda mal, esse não é um daqueles textos de pessoas que se deram bem na vida e agora vem contar sua história de sucesso. Na verdade, nesse momento, a vida acabou de me dar um tapa na cara, ela é muito boa nisso, por culpa minha eu sei (honestidade ou burrice, ainda estou decidindo, mas acho que dá no mesmo). Mas desistir não é uma opção. E é nesses momentos que fico feliz por ter mudado, pois alguns meses atrás provavelmente já teria abaixado a cabeça e dito, bom é assim mesmo. Mas eu decidir tentar e me sinto bem por isso.


Droga, esse texto está parecendo de autoajuda é melhor eu parar antes que comece a escrever algo do tipo: 10 dicas para se tornar uma pessoa melhor. 

sábado, 14 de dezembro de 2013

Musicas para fins (meus fins) de relacionamento

E então é sábado e você não tem mais nada para fazer. Começa a fuçar a internet em busca de algo novo para escutar - fins de semana são bons para novidades ou dormir, sempre assim 8 ou 80 - É realmente um universo de possibilidades, as musicas tem muito o que dizer e você precisa de conselhos novos. Procura bandas com nomes ou capa de cds bacanas, algumas são uma porcaria outras você não dá valor, mas te surpreende. A vida tem me ensinado que as melhores coisas são aquelas que muitas vezes não damos valor, erro meu. 
Mas você segue ouvindo muita porcaria até encontrar aquele rit que te descreve tão bem que ate doí. Então você pensa: Olha, ele passou por isso também e doeu. E quando não é apenas uma musica, mas um CD inteiro que lembra o que te aconteceu é para ouvir e abrir as feridas. E você pensa novamente: Olha só, alguém no Brooklyn sabe o que eu sei e fala sobre isso em 12 faixas consecutivas. Talvez tenha sido a forma que ele achou de cicatrizar as feridas, pena que abra as minhas. 


"I knew I was wrong, I knew I would die
But still I gave in, I gave you my heart
I gave in, I knew I would die"

The Drums



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Meu dilema pós-moderno depois de tomar algumas xicaras de café



É sempre assim, vários livros, pouco tempo e muita dispersão. Assisto a um filme e agora ando pelas ruas a procura de um Wally, uma invenção pós-moderna. Algo que nunca será, que nasce do nosso desejo. Desejo de se encontrar em meio àquela multidão. De não ser mais um invisível, mas sim, um no outro.

E depois de algumas horas de leituras acadêmicas misturadas a vários goles de café somada a minha hiperatividade diagnosticada por um artigo na Wikipédia, no alto da madrugada, me veio a seguinte reflexão: 

Não havia me dado conta, até que um dia me veio à mente que havia encontrado Wally. Não lembro-me o número do meu celular, mas recordo que a primeira vez que nos vimos ele estava com uma blusa branca/cinza com listras vermelhas. E agora como se virando a página de um de seus livros ele some novamente em meio àquela multidão caótica que só o mundo moderno poderia produzir. Agora me flagro olhando pelas janelas dos ônibus a procura de um Wally em uma página infinitamente de possibilidades e agenciamentos, mas mesmo assim, me encontro presa aquela linearidade de listras vermelhas. 

Quem diria que um filme argentino me tocaria tanto. Logo a mim que nunca se agradou pelo espanhol vê-se reproduzindo mentalmente aquelas frases e aquele sotaque. 

Contudo, tudo(?), estaria bem se eu não percebesse o dilema; Medos, inseguranças, solidão – características das grandes cidades que por serem tão dinâmicas não deixam espaço para o atravessamento dos indivíduos que se atravessam a todo instante nas, mais uma vez, listras só que dessa vez fixadas no chão. E eu, inserida num contexto de uma cidade que luta para se parecer grande. Mas só se parece nos problemas tanto de infraestrutura quanto da subjetividade de seus habitantes que desejam morar numa grande cidade, grandes cidades que ninguém se conhece e não se permitem. Um nicho de problemas globalizantes de gente altamente globalizada. 

E esse (des)encontro de similitudes me assemelha a uma daquelas imagens de “Ache o Wally”, talvez eu não devesse ser quem o procura, talvez eu seja uma daquelas figuras em meio ao caos e talvez o Wally esteja bem ali ao meu lado.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Feridas

Já vi muitas cicatrizes em teu corpo. Sei da história de muitas delas e muitas doeram-me como se fosse em minha própria carne. Mas não achei que veria feridas tão vermelhas na sua pele branca, não tão cedo. É engraçado, mas a imagem me lembrou o Nazareno marcado com os chicotes romanos, mas você não acredita em Jesus. E agora tens mais cicatrizes e eu faço parte delas.

Aquele vidro machucou não só você ele sangrou o coração de muitos e cada rasgada é sentida. Essa noite você me perguntou: O que faço? Eu não soube responder. Não é só você que está perdido eu também estou na metade do tempo – Eu sinto muito. O agora abre espaço para a incerteza. Bom, eu queria não ter medo do tempo, de achar que cada minuto é a última vez – “A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar, dizia o principezinho. – Nós adoramos a raposa é a parte mais encantadora do livro e triste.

E como a raposa tenho que explicar aos desavisados o que é vínculo. Estão sempre me importunado. Acham que cheguei até você em um cometa, tão rápido, tão efêmero. Mas não foi assim que aconteceu. Histórias são longas. Foi preciso tempo, foi preciso cativar, foi preciso deixar-me cativar. Elas não entendem o que é isso e como diria a raposa: “Mas, se tu me cativas teremos necessidade um do outro”. Não sei quem faz o papel da raposa e nem o do principezinho, mas eu necessito de ti porque me cativaste.


Estou esperando os meses passarem e eles não estão sendo nada gentis.